ponto de partida

Um estudo do espaço sonoro do JA.CA, partindo da perspectiva auditiva dos cães vira-lata habitantes da região.

Para isso irei construir circuitos elétricos, equipados com microfones e transmissores FM, operando em distintas bandas de frequência (dentro da faixa reservada pela Anatel para operação de walkie-talkies).

A intenção é acoplar esses circuitos em vários cães do Jardim Canadá, para depois analisar e registrar, desde um receptor de radio, os áudios que compõem o entorno sonoro dos cachorros da região.

Qualquer pessoa que fizer uso de walkie-talkies num raio de 5km a esses cães, poderá sintonizar seu aparato e escutá-los em tempo real.

Os sons coletados serão em grande parte registros de uma mesmo contexto sonoro, captados de forma espacializada, por microfones móveis, dispostos no bairro seguindo o arranjo espacial dos vira-latas.

Partindo desse ponto, pretendo ao longo da residência criar um banco sonoro do Jardim Canadá com áudios captados apenas pelos cães do bairro.

Com esse material coletado proponho algumas ações e desdobramentos, como:

  1. Publicizar os dados em um site, disponibilizando-os também para download.

  2. Espalhar pelo bairro receptores de rádio, que serão pontos de escuta paraque os passantes possam ouvir em tempo real, a perspectiva sonora dos vira-latas.

  3. Convidar artistas e colaboradores para editar os áudios, criando diversas narrativas em novas peças sonoras, ora partindo do caráter espacial das gravações, ora assumindo uma escuta bioacústica, evidenciando os mecanismos de comunicação desses cachorros e extraindo seus gestos sugestionados pelo áudio. Sabe-se que os cães tem a audição como sentido primordial para suas condutas e sobrevivência.

  4. Extrair e identificar, nesse conteúdo, informações de áudio de origem antrópica, como vozes, carros e outras máquinas. Evidenciando, por um viés sonoro, como a presença d os cães se molda também pela ocupação humana dos espaços.

Trata-se de um trabalho a ser realizado em parceria com a comunidade canina do Jardim Canadá e minha intenção é estabelecer um vínculo de protocooperação com esses cães.

"Protocooperação é toda relação ecológica harmônica, em que ambas as espécies são beneficiadas, mas uma pode viver independentemente da outra. A protocooperação é uma relação benéfica para ambas as espécies, embora não lhes seja indispensável.”

Enquanto eles forem os agentes da pesquisa, transmitindo para mim e para a vizinhança todos os áudios que utilizarei no trabalho, pretendo oferecer-lhes algo de benéfico, impactando, porém, o mínimo possível o seu cotidiano. Como, por exemplo, pendurando o circuito de gravação e transmissão em uma coleira anti-pulgas.