BRECHA

SARA LANA

BOLSA PAMPULHA | 2019

pesquisa de trabalho | em processo


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STUDO Nº1 | 1 TELA | DIÁRIO EM VÍDEO | PERSONAGEM OCULTA


Em uma cozinha em Tel Aviv, uma senhora prepara o seu jantar. Ao mesmo tempo, duas crianças dormem em um beliche em Chiba, no Japão. Em Houston, uma mulher aparece em um corredor e bate em uma porta de onde, poucos minutos depois, sai um adolescente de pijama. Por um outro ângulo, na sala, observamos essa mesma mulher servir a ele o café da manhã. Todas estas cenas estão visíveis na Internet, gravadas por câmeras de segurança IP utilizadas por pessoas físicas para monitorar seus espaços privados. Tenho acesso a essas imagens utilizando senhas padrão estabelecidas pelos fabricantes dessas câmaras, que muitas vezes, por negligência de seus usuários, nunca foram alteradas e, em geral, são muito simples:  "12345".

Há alguns meses me aproveito dessa brecha para observar ambientes internos de casas do mundo inteiro. Sigo uma única regra para conduzir minha coleta de imagens: estas casas devem ser habitadas por, ao menos, uma mulher. Algumas vivem sozinhas, outras com suas famílias, ou com terceiros, trabalhando como domésticas e cuidadoras. Um exemplo desta coleção e de parte do material encontrado no vídeo acima.

Durante a residência no Bolsa Pampulha quero criar diários íntimos nos formatos escritos e em vídeos, feitos a partir do arquivo de imagens gravadas em servidores de videovigilância residenciais. Seis mulheres, escolhidas segundo critérios sociais, de idade e geográficos, terão seus cotidianos narrados e apresentados ao final da residência.

O conteúdo escrito será publicado na forma de 6 cadernos/diários manuscritos, um para cada mulher observada. Já o material em vídeo será editado, gerando igualmente 6 curtas metragens. No link (1) apontado entre as referências apresento os primeiros exercícios de edição: alguns revelam as personagens, outros mostram apenas os ambientes vazios de suas casas e integram, em forma de legenda, os escritos dos diários íntimos aos vídeos.

É importante destacar que o diário dessas “personagens” será escrito em 3ª pessoa, pelo sujeito do olhar da câmera, que é invisível e desconhecido por parte das que são observadas. Minha intenção, nesse trabalho, é romper com esse desequilíbrio e opacidade de relação, criando uma narrativa de intimidade e aproximação.  

Enquanto pessoas do mundo inteiro compartilham suas  vidas em 140 caracteres e em "stories" de 15 segundos, dar-se o tempo para se aproximar da vida íntima dessas mulheres é um gesto de resistência, lentidão e um choque de temporalidades. A voyeuse pode não ser apenas aquela que observa, mas quem sabe, também aquela que tenta compreender e compartilhar os momentos da vida.

Esse projeto é também um reflexão sobre as novas práticas de vigilancia que num passado recente eram restritas a grupos específicos e respaldadas pela garantia de segurança e, hoje, já estão incorporadas no cotidiano da vida urbana e das relações sociais. Somada à expansão da videovigilância, passamos por um momento em que é igualmente notável a proliferação do compartilhamento de imagens da vida íntima e cotidiana de indivíduos, seja em reality shows ou em redes sociais.

Esta exposição da vida pessoal desperta algumas questões: O que significa ver e ser visto considerando a notável a penetração da videovigilância no nosso cotidiano? Como compreender esse novo desenho de fronteiras entre o público e o privado? Como interpretar o crescente interesse por ferramentas de autocontrole e autovigilância? E, por último, como garantir o direito à proteção de imagens e dados em uma sociedade ao mesmo tempo dependente dessas tecnologias e por elas alienada.

Essas são indagações que provocam não somente essa pesquisa como também outros de meus projetos sobre essa temática, como Pontos Cegos (link 2): uma ferramenta de detecção automática de câmeras de segurança capaz de mapear esses aparatos e indicar a seus usuários o momento exato em que estão sendo filmados. Uma segunda etapa desse projeto está em desenvolvimento e trata-se de um traçador de rotas de invisibilidade,  que permite traçar caminhos de um ponto A até um ponto B passando apenas pelos pontos cegos das câmeras de uma cidade.